Sala do Participante

Artes

28/01/2014

Sueli Gonçalves

A paixão de Sueli Gonçalves pela literatura vem desde a infância. Formada em letras, com licenciatura em literatura brasileira e portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), trabalha como professora desde que se aposentou, em 1995. E não parou por aí. Em 2005, criou a Academia Estudantil de Letras (AEL), projeto pioneiro que começou em São Paulo (SP) e já chegou a outras partes do Brasil e do mundo.

A iniciativa funciona nos mesmos moldes de uma autêntica Academia de Letras (como a Academia Brasileira de Letras – ABL, por exemplo), adaptada para o público infantil. Os alunos escolhem autores para representar na AEL. A partir daí, realizam pesquisas e seminários sobre o tema, além de acompanhar palestras de poetas, escritores e artistas convidados e participar de peças de teatro montadas a partir de obras primas da literatura.

“Os participantes permanecem no projeto, geralmente, até o final de seus estudos, no Ensino Fundamental, por opção. Os mais experientes vão, pouco a pouco, assumindo a titularidade das cadeiras pretendidas e os das séries precedentes vão compondo o grupo de membros correspondentes ou suplentes, o que garante a continuidade do processo, de maneira eficiente e organizada”, explica, orgulhosa, a criadora do projeto.

Incentivo

Sueli destaca que as atividades da academia são pensadas para incentivar os alunos a ler, procurando os livros de forma espontânea. Inicialmente criado na Escola Municipal de Ensino Fundamental Padre Antônio Vieira, em São Paulo (SP), o projeto já tem 25 academias estudantis estabelecidas. Outras três devem ser criadas ainda no primeiro semestre de 2014.

A iniciativa serviu de modelo para a implantação de academias estudantis em escolas de outras cidades do estado de São Paulo (Ferraz de Vasconcelos, Guarulhos, Poá e Suzano) e em Apodi (RN). Há registro, ainda, de experiências semelhantes em Quixadá (CE) e Tijucas (SC). “Digo que o projeto está disponível para quem quiser colocá-lo em prática com o mesmo envolvimento e com a mesma paixão que sinto por ele. Aprisioná-lo seria egoísmo. Compartilhar essa ideia me faz feliz”, afirma Sueli.

O projeto já foi, inclusive, apresentado a pessoas de todo o mundo, durante a realização do Fórum Social Mundial em Túnis, capital da Tunísia, em março de 2013. Sueli conta que inscreveu a AEL no concurso “Rede Aprender e Ensinar Tecnologias Sociais”, promovido pela Fundação Banco do Brasil, para professores da rede pública. Após participar de um seminário, o projeto foi escolhido como um dos representantes do país no evento internacional.

“Ainda me pego rindo sozinha, por sentida comoção, quando me recordo dessa inesquecível experiência! Como um projeto nascido de forma tão espontânea, com uma professora, debaixo dos eucaliptos da escola, poderia ter alcançado tamanha projeção? Sempre acreditei na literatura e nas inúmeras possibilidades de explorá-la a favor da construção de valores humanos imprescindíveis para toda e qualquer aprendizagem. Eu sentia que era preciso encontrar meios de harmonizar a sala de aula, cativar os alunos, criar entre eles próprios sentimentos recíprocos de respeito e de amizade, desenvolver a autoestima, para, depois, investir no ensino da língua portuguesa, a minha disciplina”, conclui a participante da PREVI, que no BB atuou entre 1974 e 1995, nas agências Brás e Sílvio Romero, no bairro do Tatuapé (ambas na capital paulista).

O que o projeto representa para você, e quais as expectativas para o futuro?

A minha relação com o projeto é tão grande, como a de mãe e filha. A AEL representa para mim muito mais do que a realização de um sonho: eu respiro AEL 24 horas por dia, até mesmo em férias. Agradeço a Deus pela inspiração, à Secretaria Municipal de Educação de São Paulo – Diretoria Regional de Educação Penha, professores coordenadores dos estudos literários e das aulas de teatro, às equipes gestoras das escolas e a todos os que acreditam na educação e se entregam a ela e por ela. Quanto ao futuro... Ah! Eu queria que a AEL vivesse para sempre!

Seu trabalho no Banco do Brasil tem ou teve alguma relação com a AEL?

Ingressei no BB com pouco mais de vinte anos, ao mesmo tempo em que ingressei na faculdade. Pensei que ficaria somente até me formar, pois, desde criança, o meu sonho era mesmo ser professora. Pensei que não me adaptaria a um serviço burocrático, frio, nada poético e que eu não tinha vocação para trabalhar em um banco. O que descobri, logo de início, é que eu estava enganada. O Banco do Brasil era diferente, especial. Fui muito bem recebida pela chefia imediata, pelos colegas de mais idade que já eram pais de família e pelas meninas e meninos que, como eu, chegavam um a um, dia após dia, para tomar posse na Agência Metropolitana do Brás. Logo eu me casei e as minhas três filhas foram nascendo, com diferença de dois anos e pouco entre a chegada de uma e outra. Assim como eu, os colegas foram se casando e tendo seus filhos também. Eu me tornei madrinha dos filhos de três colegas de trabalho nas duas agências em que trabalhei e, durante anos, a família Banco do Brasil fez e faz parte da minha vida! Como, então, dissociá-lo do que sou, do que me tornei?

 

Quem quiser conhecer mais sobre a Academia Estudantil de Letras pode entrar em contato com Sueli Gonçalves por e-mail: suelizinha@uol.com.br.