|nº 127| Set/Out 07

Nesta Edição » Social » Entrevista - Bento Soares

O futebol ‘visto’ pelo rádio de Bento Soares

Funcionário aposentado do BB e cronista esportivo freelance, fala de sua paixão pelo futebol e
pela crônica esportiva, que retratou em livro

Funcionário aposentado do Banco do Brasil, ex-técnico de futebol, comentarista freelance no rádio, Bento Leite Soares lançou livro em que lembra do tempo em que as transmissões esportivas preenchiam o imaginário das pessoas. Em Vendo o Jogo pelo Rádio, mostra a importância do futebol, da crônica esportiva e faz um apanhado histórico, desde a primeira transmissão esportiva em 1931. Em suas páginas sobrevivem jogadores, locutores, comentaristas de um outro tempo. Veja abaixo os principais trechos desta entrevista concedida com exclusividade para a Revista PREVI.

Revista PREVI – Vamos falar um pouco de sua carreira no Banco...
Bento Leite Soares –
Tomei posse no BB em junho de 1979, na agência de Cajazeiras (PB), depois fui para Vitória do Santo Antão (PE), voltei para a Paraíba para instalar a agência de Alhambra. Depois trabalhei por dez anos na superintendência, de assessor até chefe de gabinete. No Banco comecei na carteira rural como auxiliar administrativo, fiz concurso interno para escriturário, fui para cargos de supervisão etc. Aposentei-me na agência João Pessoa Centro em novembro de 2000.

Revista – É aí que começa a história do seu livro Vendo o Jogo pelo Rádio...
Bento –
Sim, depois que me aposentei voltei a estudar e prestei vestibular para Jornalismo, na Universidade Federal da Paraíba. Antes, eventualmente, trabalhava em crônica esportiva. O Banco não permitia muito, mas eu sempre trabalhei em cidades que tinham emissoras de rádio. Não assumia compromissos por conta de estar impedido de viajar, mas sempre que havia um jogo local eu colaborava como comentarista. Daí fui também treinador de futebol...

Revista – Treinador de que time?
Bento –
Do Nacional de Cajazeiras, inclusive classifiquei o time para a divisão especial do campeonato estadual da Paraíba em 1980. Tive de desistir pela impossibilidade de conciliar as carreiras. No campeonato é necessário se deslocar para jogar fora e o Banco não ia permitir. O time está na divisão principal até hoje com o nome de Atlético de Cajazeiras.

Revista – E a carreira na crônica esportiva?
Bento –
Na realidade, começou mesmo em serviço de alto-falante no colégio Salesiano de Juazeiro do Norte (CE). Daí fui para a rádio Iracema (CE) como comentarista substituto e tomei gosto pela coisa. Em cada cidade que chegava havia uma emissora e eu colaborava, mas sem vínculo empregatício. Ainda hoje faço esse trabalho como freelance, sem remuneração. E colaboro com uma revista em João Pessoa chamada A Semana, na coluna Jogada de Letra, de futebol e comportamento.

Revista – Voltando ao livro, foi um projeto de conclusão de curso na graduação e acabou parando no Programa do Jô...
Bento –
Sim, fui incentivado pelo pessoal da banca e colegas, comprei a idéia e lancei o livro, que teve repercussão muito grande. Nele, procurei sintetizar 112 anos de futebol no Brasil, 83 da existência do rádio e 75 da primeira transmissão esportiva, procurando cobrir essa história em todo o país.
Lancei na época da Copa do Mundo de 2006, daí recebi uma ligação da produção do Jô Soares, que havia tomado conhecimento e tinha interesse em gravar o programa. Nunca tive essa pretensão, mas o que mais poderia querer. A repercussão foi muito grande, deu tudo certo. Isso deu uma alavancada danada, porque fiz o livro com ajuda de colegas do Banco.
Colegas que contribuíram e deram condições para levantarmos o dinheiro da publicação. Fiz 1.000 livros, que estão esgotados. Agora tenho ele revisado e ampliado no computador esperando uma nova edição.

Revista – Dos narradores da história do rádio e da TV, quais o senhor considera mais importantes?
Bento –
Há figuras marcantes, como o Nicolau Tuma, pelo pioneirismo em São Paulo, depois, o Galeano Neto, pela primeira narração internacional na Copa do Mundo de 1938, pela Rádio Clube do Brasil. Esses nomes são importantes, mas entre os mais destacados temos o Valdir Amaral, na Rádio Globo, o Fiori Giglioti, na Bandeirantes, o Osmar Santos, o primeiro criador de bordões, teve o Januário de Oliveira, também muito criativo.

Revista – No livro, há esse espírito de valorizar a crônica esportiva, que é considerada um gênero menor no jornalismo...
Bento –
É tida como coisa menor. Tanto que o jornalismo esportivo saiu das últimas páginas com o Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues e que dá nome ao Maracanã. Mário era flamenguista fanático e, Nelson, torcedor do Fluminense. Juntos com Ary Barroso, eles faziam um trio que divulgou muito o Fla-Flu para todo o país.
É preciso lembrar que durante muitos anos, no interiorzão do país, os times com maior popularidade eram os times do Rio por causa da Rádio Nacional, que transmitia para o Brasil inteiro. Só depois, com o advento da televisão e o Santos de Pelé, é que o futebol paulista viria a adquirir sua parcela de aceitação. Tudo começou com o rádio e acho que tanto o rádio quanto a crônica esportiva deviam ser mais reconhecidos.

Revista – O auge da Rádio Nacional foi logo antes da TV?
Bento –
Sim, a Rádio Nacional foi uma potência. É comparável ao que é a Globo hoje. Acho até que a Nacional tinha muito mais força na época. Eles faziam concurso para eleger o jogador do ano e o vencedor tinha 4 milhões de votos nos anos 1950.

Revista – No livro o senhor fala do que o rádio provocava no imaginário das pessoas...
Bento –
É verdade, a televisão no Brasil é de 1950, mas começou aqui no interiorzão do Nordeste para a maioria das pessoas na década de 1970. Antes girava tudo em torno do rádio. O rádio era o principal bem de consumo da casa, mais que a geladeira. Divertia, educava, instruía. Era o lazer das famílias nordestinas pobres.
E as transmissões povoavam a imaginação. No dia seguinte a gente ia para o colégio e no intervalo discutia como um jogador driblou o outro, a bola que o goleiro foi com a pontinha dos dedos e espalmou, como se tivesse visto.
Aliás, o título do livro eu tirei de um bordão da Rádio Globo, que dizia: “veja o jogo ouvindo a Rádio Globo”. E acrescentava: “é como se você estivesse à beira do gramado”.