|nº 148| Mar 10

Nesta Edição » Entrevista » Um jogo de ganha-ganha

Revista – Uma das palestras oferecidas por vocês é a “Educação Financeira – Plantando para o Futuro”, um conceito próximo da questão previdenciária. Existe uma intersecção entre os dois temas?

Modernell – Sim, a relação é direta. Inclusive já estamos tratando educação financeira de maneira segmentada. A educação previdenciária e a educação securitária são dois dos segmentos mais representativos, que também devem ganhar mais espaço na mídia.

Por uma questão legal, todos os fundos de previdência são estimulados a levar educação financeira a seus participantes. O enfoque maior, nesse caso, é a formação de poupança de longo prazo e a preparação para o período pós-aposentadoria.

Os dados sinalizam uma longevidade cada vez maior da população. Há poucas décadas a expectativa do brasileiro era de menos de 60 anos. Muitos não chegavam sequer a se aposentar, contribuíam por longos anos e não colhiam os frutos. Hoje a expectativa de vida está próxima da casa dos 80. Com o avanço da medicina e da qualidade de vida, é possível que muitos de nós passemos dos 100 anos. Nossos filhos devem ir ainda mais longe.

Aí aparece a importância da educação financeira. E da educação previdenciária. E mais ainda da previdência complementar. É preciso mostrar a importância da formação de poupança e do planejamento financeiro de longo prazo. Faz-se necessário mostrar à população que uma parte do consumo presente deve ser sacrificada para assegurar melhores condições no futuro. Também faz parte da educação previdenciária estimular os participantes dos fundos de pensão e previdência a acompanharem e participarem ativamente da sua entidade. Das decisões e do desempenho. Da qualidade da gestão dos recursos depende o futuro financeiro de todos. Sabemos que o brasileiro de modo geral ainda poupa pouco. Pouco nos valores e pouco no prazo. Os fundos de pensão e previdência, por sua vez, ajudam a compensar essa fraqueza psicológica por meio de regras e limitações de movimentação.

Além disso, com educação financeira o dinheiro parece crescer. Rende mais. Aprende-se a organizar melhor as contas evitando pagamento de multas e juros. Descobre-se a importância da pesquisa de preços e o valor da pechincha e das negociações. Reduzem-se as compras por impulso. Eliminam-se os desperdícios. Percebe-se o valor da tranquilidade financeira e criam-se barreiras ao consumo desenfreado.

Revista – O senhor defende que a educação financeira deve ser iniciada na infância, inclusive, é autor de vários títulos dedicados a esse público. Para tanto, diz acreditar que as crianças não podem ser isoladas do consumo, mas devem ser preparadas para o consumo consciente. Como se dá esse processo?

Modernell – “Educa as crianças e não precisarás punir os homens” (essa é uma citação de Pitágoras). O dinheiro também pensa assim. Crianças educadas e esclarecidas financeiramente além de “custarem menos” para os pais certamente estarão mais bem preparadas para evitar as armadilhas do consumo e para aproveitar as oportunidades que se apresentam.

Há muitos anos venho me dedicando à educação financeira infantil. E antes que alguém pense que isso não é coisa para criança, permita-me lembrar que todos nós, ainda quando crianças, fomos apresentados a clássicos dessa área, A Galinha dos Ovos de Ouro e A Formiga e a Cigarra tratam exatamente disso: educação financeira. E muitos de nós nem haviam percebido isso. Nem mesmo nossos pais. Em meus livros infantis não falo sequer de matemática. São abordados princípios como a importância do poupar, de conservar o patrimônio (brinquedos, roupas, material escolar), da ética no trato com o dinheiro, da importância de saber escolher, sonhar e planejar. Apesar de o tema ser relacionado a fi nanças, destaco que existem coisas mais importantes do que o dinheiro, como a família, as amizades, a ética e a natureza.

A questão do consumo consciente é fundamental. Não dá para querer isolar as crianças do consumo. Elas são atacadas por todos os lados. E muitas vezes o consumo de algum produto ou marca ajuda elas a criarem uma identidade com o grupo. O que podemos fazer é estabelecer limites, mostrar as armadilhas, ponderar valores, ajudá-las nas escolhas. A minha visão de consumo consciente é mais ampla do que apenas pensar na responsabilidade socioambiental. A consciência deve estar relacionada também com a situação econômicofinanceira da família, com evitar desperdícios, com a não banalização do ato de comprar.

Revista – Fazem parte do www.maisativos.com.br psicólogos, pedagogos, economistas, jornalistas, consultores financeiros. Como funciona a dinâmica do blog? Quais são as vantagens dessa interdisciplinaridade para tratar do tema “educação financeira”?

Modernell – A Mais Ativos Educação Financeira funciona de uma maneira interessante, por projetos. Percebemos que educação financeira deveria ter muito mais ênfase na educação que em finanças. Assim, os aspectos pedagógicos, psicológicos e comportamentais ganharam relevância na nossa forma de atuar. A questão da linguagem também. Abolimos o economês e a linguagem acadêmica. Procuramos tratar educação financeira de maneira simples, descomplicada, lúdica muitas vezes. E essa fórmula vem dando certo. E não apenas para o público infantil. Com a experiência que adquirimos escrevendo e falando para e com crianças, percebemos que os pais passaram a se interessar mais pelo assunto. E descobrimos o óbvio: ninguém gosta do que não entende, daquilo que parece complicado. Passamos a escrever e dar palestras com linguagem mais simples, sem apresentar contas. Focamos no comportamento, nas atitudes. Mostramos exemplos, apresentamos dicas. Sempre aproximando-nos da realidade de cada público. Optamos por atingir a grande população, em vez de aprofundar conhecimentos em temas específi cos. Há outras pessoas fazendo isso e é salutar que o trabalho seja complementar. A educação financeira chegou para ficar. Temos orgulho de ajudar a semear algo que poderá auxiliar milhares de pessoas e famílias por toda a vida. E por que não dizer também o próprio País. É o tipo de estratégia ganha-ganha. Ganham os indivíduos, as famílias, a sociedade e a nação.

<< Primeira | < Anterior | 1 | 2 | Próxima > | Última >>